Neste Vigésimo Segundo Domingo depois de Pentecostes, a Liturgia Sagrada continua a nos guiar pelo longo e fecundo tempo que representa a peregrinação terrena da Igreja, desde a descida do Espírito Santo até a consumação dos séculos. Não celebramos hoje o martírio de um santo específico ou uma festa do ciclo temporal, mas o mistério contínuo da Noiva de Cristo que caminha no mundo sem pertencer ao mundo. É o tempo em que a sã doutrina deve criar raízes profundas nas almas, armando os fiéis para os combates espirituais de cada dia. O Evangelho do tributo a César e a profunda Epístola de São Paulo aos Filipenses são proclamados para despertar a consciência adormecida, lembrando aos católicos de todos os tempos que a nossa cidadania verdadeira está nos céus. Como é costume nestes domingos comuns, unimos nossas intenções ao coração espiritual da Cristandade, voltando os olhos para a Basílica de São Pedro, sobre cujo fundamento infalível repousa a fé que vence as seduções e as armadilhas deste mundo passageiro.
Vede, meus amados, a astúcia venenosa dos fariseus e herodianos no Evangelho de hoje! Eles se aproximam de Cristo com lábios gotejando mel, proferindo palavras de impressionante reverência: (Mestre, sabemos que és verdadeiro e ensinas o caminho de Deus). Quanta exatidão no vocabulário! Quanta piedade na sua encenação! No entanto, o próprio Senhor arranca-lhes as máscaras com uma única e fulminante sentença: (Por que Me tentais, hipócritas?) Aqui, a Sabedoria Eterna expõe o grande drama da religião falsificada, um veneno que atravessa os séculos e assalta a nossa época com fúria redobrada. Há uma terrível ilusão tentando se erguer sobre as ruínas da verdadeira devoção: um arremedo de fé que domina a arte do teatro, mas que é completamente destituída de substância celestial. Mantêm-se os ritos vazios, os discursos açucarados sobre a fraternidade e o vocabulário de domingo, mas, nos bastidores das almas e das congregações, a maquinaria gira em direção ao abismo. Enquanto a verdadeira Igreja ergue os olhos para o céu e nos arrasta para a presença terrível e amorosa do Criador, exigindo o nosso sacrifício, essa imitação grotesca transforma o santuário em um palco onde o próprio homem é aplaudido. As formas exteriores parecem familiares, mas o núcleo foi substituído. O augusto sacrifício do altar, tremendo e divino, corre o risco de ser nivelado a uma mera confraternização terrena. A doutrina que salva, forjada no sangue dos mártires, é dissolvida em um pântano de opiniões sociológicas. E a fé? A fé degenera-se em um sentimento morno e confortável de quem apenas frequenta um grupo social. A consumação desta tragédia ocorre quando a ordem do universo é invertida: as urgências puramente humanas sentam-se no trono, e a salvação sobrenatural, a vida eterna, é silenciosamente expulsa pelas portas dos fundos. Homens seduzidos pelos prazeres mundanos e pelo conforto recusam o peso da Cruz. Mas Cristo pede a moeda! (De quem é esta imagem?) De César. Santo Agostinho, com voz de trovão, adverte-nos: se César exige a sua efígie cunhada no metal perecível, não exigirá Deus a Sua própria imagem cunhada na vossa alma imortal? Por que, então, dais a César o que pertence a Deus? São Paulo hoje nos implora que a nossa caridade transborde em (ciência e entendimento, para que possais discernir o que é melhor). Discerni, ó cristãos, a diferença entre a luz e as trevas, entre a eternidade e o tempo! Não entregueis ao mundo a alma que foi lavada com o Sangue do Cordeiro. Rompei com o espírito desta época corrompida e lançai-vos ao trono da graça, clamando com o Introito de hoje: (Se observardes as iniquidades, Senhor, quem poderá subsistir?) Somente Ele, que começou em vós a boa obra, poderá aperfeiçoá-la, não para a glória dos homens, mas para o triunfo eterno de Deus!