São Carlos Borromeu (falecido em 1584), sobrinho do Papa Pio IV, foi nomeado cardeal e arcebispo de Milão com apenas vinte e dois anos. Em vez de se entregar ao luxo inerente à sua posição de nobreza, tornou-se um modelo flamejante de pastor e reformador. Foi uma figura central na conclusão do Concílio de Trento, dedicando sua vida a aplicar seus sagrados decretos para renovar a Santa Igreja. Em Milão, fundou seminários para a correta formação do clero, promoveu a educação dos leigos com a criação de escolas e insistiu com veemência na reverência e dignidade da sagrada liturgia. Durante a terrível peste de 1576, enquanto as autoridades civis fugiam covardemente para os campos, ele permaneceu incólume na cidade, cuidando pessoalmente dos doentes crônicos, distribuindo toda a sua vasta fortuna aos pobres e organizando imenso socorro espiritual e material. Sua vida foi inteiramente marcada por uma austeridade rigorosa, intensas vigílias de oração e um zelo incansável pela salvação das almas, entregando seu espírito a Deus aos quarenta e seis anos, completamente esgotado pelo labor apostólico. Seu corpo venerável repousa na grandiosa Catedral de Milão.
Olhai para os altares, meus irmãos, e dizei-me com sinceridade: o que ides buscar na Casa de Deus? Em nossos dias tenebrosos, ergue-se diante de nós a terrível tentação de transformar o sagrado em um teatro vazio. Há uma paródia de religião que se insinua sorrateiramente, ostentando as roupagens da piedade, multiplicando palavras gentis, mas completamente desprovida do fogo do sacrifício. Nessa farsa montada pelo inimigo, a adoração cede lugar a um palco humano, onde a criatura se coroa de glórias terrenas, celebra a si mesma, e o Criador é educadamente relegado às sombras. A liturgia, que é a irrupção do céu na terra e o pavor dos demônios, é covardemente rebaixada a uma mera confraternização horizontal. A verdade imutável da sã doutrina desmancha-se na lama das opiniões convenientes, e a fé, outrora o estandarte banhado pelo sangue dos mártires, torna-se apenas o bilhete de entrada para um agradável clube de amigos. É a grande tragédia do espírito mundano: ele vomita a cruz, foge da mortificação e exige uma religião sob medida, encharcada de facilidades fugazes, onde o sobrenatural é asfixiado para que os caprichos humanos reinem. Mas, escutai bem, quando a barca de Pedro parece afundar sob o peso das tormentas, Deus levanta gigantes. A missão suprema de todo grande santo é desferir um golpe fatal na mentira capital que ameaça engolir o seu tempo. No turbulento século dezesseis, quando a tempestade da revolta protestante rasgava a túnica inconsútil de Cristo e o relaxamento paralisava as veias do clero, o Senhor não nos enviou um diplomata suave, mas suscitou São Carlos Borromeu. Ele não enterrou os cinco talentos de sua inteligência, nobreza e juventude na terra lodosa das vaidades da corte. Em vez disso, purificou o rebanho com as chamas santificadoras de Trento! Vede, nas epístolas de hoje, o grande sacerdote: enquanto os poderosos da terra fugiam da peste mortífera que assolava Milão, Carlos caminhava entre os moribundos e os cadáveres insepultos, consolando os corpos apodrecidos e arrebatando as almas para o paraíso. O grande Doutor, São Gregório, adverte-nos de que a ninguém falta a graça para operar o bem, mas quão poucos são os que se dispõem a multiplicá-la! O servo mau e preguiçoso do Evangelho escondeu a sua moeda porque preferiu a segurança do comodismo à aventura da caridade divina; teve um medo servil, mas não teve uma gota de amor. O santo bispo de Hipona, por sua vez, ensina que a recompensa final não é um prêmio exterior que se carrega nas mãos, mas o mergulho eterno e arrebatador na própria alegria do Senhor. Que faremos nós com a graça que nos foi confiada? Sacudamos urgentemente a poeira da tibieza! Que a nossa presença diante de Deus não seja uma encenação estéril, mas a oblação de um coração contrito, para que, no tremendo dia do juízo, quando o tempo der lugar à eternidade, não ouçamos a terrível condenação do servo inútil, mas sim o doce e glorioso convite do Mestre amado: vem, servo bom e fiel, entra para sempre na alegria do teu Senhor!
Introito - (Eclo 45, 30; Sl 131, 1) Státuit ei Dóminus testaméntum pacis, et príncipem fecit eum: ut sit illi sacerdótii dígnitas in ætérnum. Ps. Meménto, Dómine, David: et omnis mansuetúdinis ejus. O Senhor fez com ele uma aliança de paz e o constituiu príncipe, para que possua a dignidade sacerdotal eternamente. Sl. Lembrai-Vos, Senhor, de Davi e de toda a sua mansidão.
Epístola (Eclo 44, 16-27; 45, 3-20) - Ecce sacérdos magnus, qui in diébus suis plácuit Deo, et invéntus est justus: et in témpore iracúndiæ factus est reconciliátio. Non est invéntus símilis illi, qui conserváret legem Excélsi. Ídeo jurejurándo fecit illum Dóminus créscere in plebem suam. Benedictiónem ómnium géntium dedit illi, et testaméntum suum confirmávit super caput ejus. Agnóvit eum in benedictiónibus suis: conservávit illi misericórdiam suam: et invénit grátiam coram óculis Dómini. Magnificávit eum in conspéctu regum: et dedit illi corónam glóriæ. Státuit illi testaméntum ætérnum, et dedit illi sacerdótium magnum: et beatificávit illum in glória. Fungi sacerdótio, et habére laudem in nómine ipsíus, et offérre illi incénsum dignum in odórem suavitátis.Eis o grande sacerdote que nos dias de sua vida agradou a Deus e foi considerado justo; no tempo da ira, tornou-se a reconciliação dos homens. Ninguém o igualou na observância das leis do Altíssimo. Por isso o Senhor jurou que o havia de glorificar em sua descendência. Abençoou nele todas as nações e confirmou sua aliança sobre a sua cabeça. Distinguiu-o com as suas bênçãos; conservou-lhe a sua misericórdia e ele achou graça diante do Senhor. Enalteceu-o diante dos reis e deu-lhe uma coroa de glória. Fez com ele uma aliança eterna; deu-lhe o sumo sacerdócio, e encheu-o de felicidade na glória, para exercer o sacerdócio, cantar louvores a seu Nome e oferecer-Lhe dignamente incenso de agradável odor.
Evangelho (Mt 25, 14-23) - In illo témpore: Dixit Jesus discípulis suis parábolam hanc: Homo péregre proficíscens, vocávit servos suos, et trádidit illis bona sua. Et uni dedit quinque talénta, álii autem duo, álii vero unum, unicuíque secúndum própriam virtútem, et proféctus est statim. Ábiit autem qui quinque talénta accéperat, et operátus est in eis, et lucrátus est ália quinque. Simíliter et qui duo accéperat, lucrátus est ália duo. Qui autem unum accéperat, ábiens fodit in terram, et abscóndit pecúniam dómini sui. Post multum vero témporis venit dóminus servórum illórum, et pósuit ratiónem cum eis. Et accédens qui quinque talénta accéperat, óbtulit ália quinque talénta, dicens: Dómine, quinque talénta tradidísti mihi, ecce ália quinque superlucrátus sum. Ait illi dóminus ejus: Euge, serve bone et fidélis: quia super pauca fuísti fidélis, super multa te constítuam: intra in gáudium dómini tui. Accéssit autem et qui duo talénta accéperat, et ait: Dómine, duo talénta tradidísti mihi, ecce ália duo lucrátus sum. Ait illi dóminus ejus: Euge, serve bone et fidélis: quia super pauca fuísti fidélis, super multa te constítuam: intra in gáudium dómini tui.Naquele tempo, disse Jesus a seus discípulos esta parábola: Um homem, indo viajar para longe, chamou os seus servos e entregou-lhes os seus bens. A um deu cinco talentos, a outro dois, e ao terceiro um, a cada qual segundo a sua capacidade. E partiu logo depois. Aquele que havia recebido os cinco talentos, foi-se e negociou com eles, e lucrou outros cinco. Da mesma sorte, o que recebera os dois talentos ganhou também outros dois. Mas o que havia recebido um só, foi cavar a terra e escondeu o dinheiro de seu senhor. Passado muito tempo, voltou o senhor desses servos, e chamou-os a contas. Aproximando-se o que tinha recebido cinco talentos, apresentou-lhe outros cinco, dizendo-lhe: Senhor, vós me entregastes cinco talentos; eis outros cinco mais que lucrei. Disse-lhe o seu senhor. Muito bem, servo bom e fiel, porque foste fiel no pouco, sobre muito te porei; entra na alegria de teu senhor. Apresentou-se também o que recebera os dois talentos e disse: Senhor, vós me entregastes dois talentos; eis aqui outros dois mais que eu ganhei. Disse-lhe o seu senhor: Muito bem, servo bom e fiel, porque foste fiel no pouco, sobre muito te porei; entra na alegria de teu Senhor.