A Santa Igreja, em sua sabedoria maternal, dedica o dia dois de outubro à solene celebração dos Santos Anjos da Guarda, príncipes da corte celeste e fiéis guardiões das almas humanas. Embora a reverência aos espíritos puros esteja presente desde os alvores da cristandade, enraizada na própria promessa divina do Antigo Testamento e confirmada pelos lábios do Salvador, foi no século dezesseis que esta festa adquiriu contornos litúrgicos próprios, sendo estendida a toda a catolicidade pelo Papa Paulo V, no ano de mil seiscentos e oito. Em um ato de misericórdia inefável, o Criador designa a cada ser humano, desde o instante de seu nascimento até o último suspiro na terra, um companheiro invisível, invencível e puríssimo, encarregado de iluminar as trevas do entendimento, afastar os perigos do corpo e da alma, e conduzir o peregrino à pátria eterna. Ao celebrarmos esta festa, somos chamados a recordar que a nossa vida terrena é uma verdadeira milícia, mas não combatemos sozinhos; os esplendores do paraíso acampam ao nosso redor. Para honrar a glória destes espíritos celestiais na Cidade Eterna, voltemos nossos corações espiritualmente para a Igreja dos Santos Anjos da Guarda, onde a devoção romana ergueu altares em ação de graças por tão sublime proteção contínua.
Olhai para o altar do sacrifício, amados irmãos, e dizei-me o que vedes! Os olhos da carne enxergam apenas paramentos, pedra e pão; mas a inteligência iluminada pela fé vislumbra milhares de milhares de espíritos chamejantes, prostrados em adoração diante do Cordeiro imolado. Como é terrível e majestoso este lugar! E, no entanto, como é trágica a cegueira de nossa época envelhecida pelo pecado! O grande veneno deste nosso tempo orgulhoso é o naturalismo aterrador, a negação insolente do sobrenatural, que tenta reduzir o combate da salvação a meras questões de sociologia humana. O mundo moderno quer roubar o céu de sobre nossas cabeças e fechar o inferno debaixo de nossos pés, transformando a eternidade em um mito esquecido. E quão doloroso é ver que esta fumaça pestilenta tenta invadir o próprio santuário! Erguem-se diante de nós, com a ousadia dos falsários, arremedos de religião: assembleias que mantêm as vestes e os cânticos tradicionais, que discursam suavemente sobre a fraternidade, mas que, na sua essência, tornaram-se uma máquina cega girando implacavelmente para o abismo. Nessas reuniões esvaziadas do divino, o homem usurpou o trono de Deus. A liturgia, que deveria ser o pavor dos demônios e o consórcio com os anjos, é rebaixada a um mero entretenimento para agradar a audiência; a doutrina cristalina, comprada com o sangue dos mártires, é diluída em um banquete de opiniões caducas e consensos rasteiros. O alvo já não é a glória de Deus, mas o aplauso mútuo; a religião tornou-se um mero grêmio de comodidades sentimentais. Mas recuai, almas cristãs, recuai com horror diante desta falsificação das realidades eternas! A verdadeira fé exige o sacrifício e a verdadeira Igreja não se curva aos caprichos do século; ela aponta o dedo em riste para as alturas celestes, arrancando o homem do pântano de seus vícios para associá-lo à pureza dos Anjos. Vede a grandeza estupenda da vossa alma, que levou o Senhor a arrancar do Seu próprio paço celestial um príncipe de luz para ser vosso servo e guarda! Como o Doutor de Estridão maravilhosamente nos ensina, a dignidade da alma humana é tão vasta que lhe é dado um anjo como companheiro de jornada. Este espírito puríssimo caminha convosco por entre as armadilhas desta vida terrena sem jamais perder de vista a face deslumbrante de Deus, unindo, num mistério de amor, a obediência militante à contemplação beatífica. Se o Anjo vos precede no caminho, como adverte a Epístola, como ousas entregar teus membros às obras das trevas na presença daquele que reflete a santidade inacessível do Criador? Tremamos diante do nosso Custódio! Ele não consentirá com a impureza, não sorrirá para o orgulho, não aplaudirá a preguiça. O Salvador, no Evangelho de hoje, rasga os véus do orgulho humano ao coroar uma criança, ensinando-nos que a verdadeira grandeza está em nos fazermos pequenos sob a mão poderosa de Deus, fugindo dos escândalos que atiram a alma nas labaredas insaciáveis. Quem se recusa a ser criança espiritual na confiança absoluta ao Pai, faz-se presa fácil dos lobos infernais. Portanto, irmãos, rechaçai os teatros mundanos que se disfarçam de religião! Aferrai-vos à sã doutrina e à severidade da cruz. Tendes ao vosso lado uma espada desembainhada em vosso favor; vivei com reverência, andai com retidão e combatei com a certeza de que a milícia celestial não permitirá que a vossa alma pereça, contanto que obedeçais, com temor e tremor, à voz de Deus que ressoa na voz do vosso Anjo da Guarda.
Benedícite Dóminum, omnes Angeli ejus: poténtes virtúte, qui fácitis verbum ejus, ad audiéndam vocem sermónum ejus.
Ps. 102, 1 Benedic, ánima mea, Dómino: et ómnia, quæ intra me sunt, nómini sancto ejus.
℣. Glória Patri, et Fílio, et Spirítui Sancto.
℟. Sicut erat in princípio, et nunc, et semper, et in sǽcula sæculórum. Amen.
Benedícite Dóminum, omnes Angeli ejus: poténtes virtúte, qui fácitis verbum ejus, ad audiéndam vocem sermónum ejus.
Bendizei o Senhor, ó vós, todos os Anjos do Senhor: Sois cheios de poder e virtude: e fazeis o que Ele vos manda, obedecendo às suas palavras e ordens.
Sl. 102, 1 Bendiz o Senhor, ó minha alma: Que tudo quanto houver em mim bendiga o santo Nome do Senhor.
℣. Glória ao Pai, e ao Filho e ao Espírito Santo.
℟. Como era no princípio, agora e sempre, e por todos os séculos dos séculos. Amen.
Bendizei o Senhor, ó vós, todos os Anjos do Senhor: Sois cheios de poder e virtude: e fazeis o que Ele vos manda, obedecendo às suas palavras e ordens.
℣. Dóminus vobíscum.
℟. Et cum spíritu tuo.
Orémus.
Deus, qui ineffábili providéntia sanctos Angelos tuos ad nostram custódiam míttere dignáris: largíre supplícibus tuis; et eórum semper protectióne deféndi, et ætérna societáte gaudére. Per Dóminum nostrum Jesum Christum, Fílium tuum: qui tecum vivit et regnat in unitáte Spíritus Sancti Deus, per ómnia sǽcula sæculórum.
℟. Amen.
℣. O Senhor esteja convosco.
℟. E com o vosso espírito.
Oremos.
Ó Deus, que por vossa inefável Providência Vos dignastes mandar os vossos Anjos para nos guardarem, concedei aos vossos suplicantes a graça de serem sempre defendidos pela sua protecção e de gozarem eternamente a sua companhia. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que, sendo Deus, vive e reina convosco na unidade do Espírito Santo, por todos os séculos dos séculos.
℟. Amen.
Léctio libri Éxodi.
Hæc dicit Dóminus Deus: Ecce, ego mittam Angelum meum, qui præcédat te, et custódiat in via, et intróducat in locum, quem parávi. Obsérva eum, et audi vocem ejus, nec contemnéndum putes: quia non dimíttet, cum peccáveris, et est nomen meum in illo. Quod si audiéris vocem ejus et féceris ómnia, quæ loquor, inimícus ero inimícis tuis et affligam affligéntes te: præcedétque te Angelus meus.
℟. Deo grátias.
Lição do Livro do Êxodo.
Isto diz o Senhor Deus: «Eis que enviarei o meu Anjo, a fim de que ele vá adiante de vós, vos guarde no caminho e vos introduza no lugar que vos preparei. Respeitai-o, ouvi a sua voz e não deixeis de atendê-lo, porque vos não perdoará quando pecardes, e nele está o meu Nome. Se escutardes a sua voz e se fizerdes tudo quanto Eu vos disser, serei inimigo dos vossos inimigos e afligirei os que vos afligem; e o meu Anjo irá adiante de vós».
℟. Graças a Deus.
Angelis suis Deus mandávit de te, ut custódiant te in ómnibus viis tuis.
℣. In mánibus portábunt te, ne umquam offéndas ad lápidem pedem tuum.
Deus mandou aos seus Anjos que te guardassem em todos os teus caminhos.
℣. Eles te levarão nas suas mãos, para que o teu pé não tropece em alguma pedra.
Allelúja, allelúja.
℣. Benedícite Dómino, omnes virtútes ejus: minístri ejus, qui fácitis voluntátem ejus. Allelúja.
Aleluia, aleluia.
℣. Bendizei o Senhor, ó todos os seus exércitos: vós, seus ministros, que executais a sua vontade. Aleluia.
℣. Dóminus vobíscum.
℟. Et cum spíritu tuo.
☩ Sequéntia sancti Evangélii secúndum Matthǽum.
℟. Glória tibi, Dómine.
In illo témpore: Accessérunt discípuli ad Jesum, dicéntes: Quis, putas, major est in regno cælórum? Et ádvocans Jesus párvulum, státuit eum in médio eórum et dixit: «Amen, dico vobis, nisi convérsi fuéritis et efficiámini sicut párvuli, non intrábitis in regnum cælórum. Quicúmque ergo humiliáverit se sicut párvulus iste, hic est major in regno cælórum. Et qui suscéperit unum párvulum talem in nómine meo, me súscipit. Qui autem scandalizáverit unum de pusíllis istis, qui in me credunt, expédit ei, ut suspendátur mola asinária in collo ejus, et demergátur in profúndum maris. Væ mundo a scándalis! Necésse est enim, ut véniant scándala: verúmtamen væ hómini illi, per quem scándalum venit! Si autem manus tua vel pes tuus scandalízat te, abscíde eum et projíce abs te: bonum tibi est ad vitam ingrédi débilem vel claudum, quam duas manus vel duos pedes habéntem mitti in ignem ætérnum. Et si óculus tuus scandalízat te, érue eum et projice abs te: bonum tibi est cum uno óculo in vitam intráre, quam duos óculos habéntem mitti in gehénnam ignis. Vidéte, ne contemnátis unum ex his pusíllis: dico enim vobis, quia Angeli eórum in cælis semper vident fáciem Patris mei, qui in cælis est».
℟. Laus tibi, Christe.
℣. O Senhor esteja convosco.
℟. E com o vosso espírito.
☩ Continuação do santo Evangelho segundo São Mateus.
℟. Glória a Vós, Senhor.
Naquele tempo, os discípulos aproximaram-se de Jesus, dizendo: «Quem julgais Vós que é o maior no reino dos céus?». E Jesus, chamando um menino, colocou-o no meio deles e disse: «Em verdade vos digo: Se não vos converterdes e vos não tornardes como meninos, não entrareis no reino dos céus. Portanto, todo aquele que se fizer humilde como este menino, esse será o maior no reino dos céus. E o que receber em meu nome um menino como este, a mim recebe. Mas o que escandalizar a um destes pequeninos que crêem em mim, melhor lhe fora que se lhe pendurasse ao pescoço uma mó de atafona, e que o lançassem no fundo do mar. Ai do mundo por causa dos escândalos! Porque é necessário que venham escândalos; mas ai daquele homem por quem vem o escândalo! Se a tua mão ou o teu pé te escandaliza, corta-o e lança-o para longe de ti; melhor te é entrar na vida manco ou aleijado, do que, tendo duas mãos ou dois pés, seres lançado no fogo eterno. E, se o teu olho te escandaliza, arranca-o e lança-o para longe de ti; melhor te é entrar na vida com um só olho, do que, tendo dois olhos, seres lançado na geena do fogo. Olhai não desprezeis a algum destes pequeninos; porque vos digo que os seus Anjos nos céus vêem incessantemente a face de meu Pai que está nos céus».
℟. Louvor a Vós, ó Cristo.
Benedícite Dóminum, omnes Angeli ejus: minístri ejus, qui fácitis verbum ejus, ad audiéndam vocem sermónum ejus.
Bendizei o Senhor, ó vós, Anjos, heróis poderosos, executores das suas ordens e sempre fiéis aos seus chamamentos.
Benedícite, omnes Angeli Dómini, Dóminum: hymnum dícite et superexaltáte eum in sǽcula.
Anjos do Senhor, bendizei todos o Senhor: cantai hinos em seu louvor e exaltai-O em todos os séculos.
℣. Dóminus vobíscum.
℟. Et cum spíritu tuo.
Orémus.
Súmpsimus, Dómine, divína mystéria, sanctórum Angelórum tuórum festivitáte lætántes: quǽsumus; ut eórum protectióne ab hóstium júgiter liberémur insídiis, et contra ómnia advérsa muniámur. Per Dóminum nostrum Jesum Christum, Fílium tuum: qui tecum vivit et regnat in unitáte Spíritus Sancti Deus, per ómnia sǽcula sæculórum.
℟. Amen.
℣. O Senhor esteja convosco.
℟. E com o vosso espírito.
Oremos.
Havendo recebido os divinos mistérios enquanto celebramos com júbilo a festa dos vossos Santos Anjos, concedei-nos, Senhor, a graça de sermos sempre livres das ciladas dos nossos inimigos e defendidos contra todas as adversidades pela sua contínua protecção. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que, sendo Deus, vive e reina convosco na unidade do Espírito Santo, por todos os séculos dos séculos.
℟. Amen.