Introito (Sl 84, 9. 2) - Loquétur Dóminus pacem in plebem suam, et super sanctos suos, et in eos, qui convertúntur ad ipsum. (Ps. 84, 2) Benedixísti, Dómine, terram tuam: avertísti captivitátem Jacob. Glória Patri...
Filhos de pais também coroados com o martírio, os santos irmãos gêmeos Gervásio e Protásio derramaram seu sangue nos primeiros séculos da era cristã, entregando suas vidas em Milão pelo nome invencível de Jesus Cristo. Por muitas gerações, seus sagrados corpos jazeram ocultos sob a terra, até o ano glorioso de 386. Naquele tempo, o grande Doutor da Igreja, Santo Ambrósio, guiado por celeste inspiração, escavou o solo e encontrou seus veneráveis restos mortais, intactos e exalando perfume do paraíso. Esta milagrosa invenção ocorreu no exato momento em que a heresia ariana, protegida pelas garras do poder imperial da imperatriz Justina, tentava usurpar as basílicas das mãos dos católicos para entregá-las aos hereges. Os numerosos e estrondosos milagres operados pelas relíquias dos mártires - incluindo a cura pública e instantânea de um cego chamado Severo - fortificaram o povo na sã doutrina e dissiparam as trevas do erro, provando que Deus defende a Sua Igreja pelo sangue de Suas testemunhas. Hoje, os corpos virginais destes dois guerreiros repousam gloriosamente junto ao próprio Santo Ambrósio na Basílica de Santo Ambrósio em Milão, bradando eternamente que a verdadeira paz só repousa na fidelidade imutável à fé católica.
Considerai, meus irmãos, o abismo intransponível que separa a sabedoria da cruz dos delírios deste mundo! O Evangelho de hoje nos lança uma bem-aventurança que faz tremer os alicerces da vaidade humana: "Bem-aventurados sereis quando os homens vos odiarem". Por que, então, nossa época foge espavorida do opróbrio e mendiga, como escrava, o aplauso das praças? No tempo de Santo Ambrósio, o perigo que espreitava o rebanho não vinha apenas da espada nua, mas da insidiosa tentativa de adaptar o Filho de Deus ao intelecto humano, esvaziando a Sua divindade para agradar aos luxuosos salões imperiais. E não é este, pergunto-vos com o coração pungido, o exato reflexo da epidemia que hoje nos assola? Padecem nossos santuários sob o ardil daqueles que, agindo muitas vezes do interior da própria Casa de Deus, tentam amoldar a Esposa de Cristo aos contornos de um século corrompido. Rejeitam a aspereza da sã doutrina e o rigor inegociável do sacrifício eucarístico; multiplicam para si falsos profetas e mestres de lisonjas, hábeis em diluir o cálice da salvação com as fábulas do conforto terreno e das permissividades mundanas. Alteram sorrateiramente as orações, os ritos e a moral, usando de ambiguidades para não ofender o ouvido carnal, buscando glorificações humanas ao invés de buscar unicamente agradar a majestade de Deus. Querem uma religião que divinize o homem e diminua o Criador. Mas contemplai como o Altíssimo esmaga as heresias transparentes e as maquinações sutis! Ele ordenou que a terra devolvesse os ossos ensanguentados e vitoriosos de Gervásio e Protásio! Ali não havia concessões dogmáticas, nem liturgias fabricadas para entreter o povo, mas o testemunho cru, doloroso e radiante da cruz. Como nos exorta São Pedro na Epístola de hoje, devemos exultar por participar dos sofrimentos de Cristo, não nos amoldando aos delírios desta era passageira. Santo Agostinho testemunhou com seus próprios olhos que o fervor reacendido pelas relíquias destes dois irmãos varreu de Milão as inovações arianas. Que o azeite de nosso amor à missa de sempre não se apague; que jamais troquemos a santidade imemorial do altar pelas honrarias de uma paz mentirosa. Pois o Senhor falará de paz, sim, como canta o Introito, mas uma paz concedida apenas àqueles que não vendem a herança sagrada por trinta moedas de humanismo e popularidade.
Introito (Sl 84, 9. 2) - O Senhor falará de paz ao seu povo, e aos seus santos, e àqueles que se convertem a ele. (Sl 84, 2) Abençoaste, Senhor, a vossa terra: libertaste Jacob do cativeiro. Glória ao Pai...
Epístola (1 Pd 4,13-19) - Caríssimos: Na medida em que participais dos sofrimentos de Cristo, alegrai-vos, para que também na revelação da sua glória vos alegreis exultando. Se sois ultrajados pelo nome de Cristo, bem-aventurados sois vós, porque o Espírito da glória e o Espírito de Deus repousa sobre vós. Que nenhum de vós padeça como homicida, ou ladrão, ou malfeitor, ou como quem se intromete em negócios alheios. Mas, se padece como cristão, não se envergonhe, antes glorifique a Deus neste nome. Porque é tempo que comece o julgamento pela casa de Deus. E se primeiro começa por nós, qual será o fim daqueles que não obedecem ao Evangelho de Deus? E se o justo dificilmente se salva, onde aparecerá o ímpio e o pecador? Portanto, também os que padecem segundo a vontade de Deus, confiem as suas almas ao fiel Criador, praticando o bem.
Evangelho (Lc 6,17-23) - Naquele tempo: Descendo Jesus da montanha, parou num lugar plano. Havia ali um grande número de seus discípulos e uma grande multidão de pessoas de toda a Judeia, de Jerusalém e do litoral de Tiro e Sidônia. Tinham vindo para ouvi-lo e serem curados de suas doenças. E os que eram atormentados por espíritos imundos também eram curados. E toda a multidão procurava tocá-lo, porque saía dele uma virtude que curava a todos. E Ele, levantando os olhos para os seus discípulos, dizia: Bem-aventurados vós, os pobres, porque vosso é o reino de Deus. Bem-aventurados vós, que agora tendes fome, porque sereis fartos. Bem-aventurados vós, que agora chorais, porque rireis. Bem-aventurados sereis quando os homens vos odiarem, e vos expulsarem da sua companhia, e vos injuriarem, e rejeitarem o vosso nome como mau, por causa do Filho do Homem. Alegrai-vos naquele dia e exultai, porque eis que é grande o vosso galardão no céu.