Introito - (Sl 51, 10-11. 3) Ego autem sicut olíva fructífera in domo Dómini, speravi in misericórdia Dei mei: et exspectabo nomen tuum, quóniam bonum est ante conspéctum sanctórum tuórum. Ps. Quid gloriáris in malítia: qui potens es in iniquitáte? ℣. Glória Patri...Eu, porém, como oliveira frutífera na casa do Senhor, esperei na misericórdia de meu Deus; e esperarei no vosso nome, porque é bom diante de vossos santos. Sl. Por que te glorias na malícia, tu que és poderoso na iniquidade? ℣. Glória Patri...
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A Igreja, como mãe previdente, prepara o espírito dos fiéis para as grandes solenidades apostólicas através do jejum e da oração nas Vigílias, recordando-nos que a luz da festa só pode ser alcançada pela mortificação da carne. Neste vigésimo dia de setembro, o olhar da Liturgia volta-se para Levi, o publicano, que se tornaria São Mateus, Apóstolo e Evangelista. Antes de ser o autor do primeiro Evangelho, Mateus era um coletor de impostos em Cafarnaum, a serviço de Herodes Antipas, ofício este profundamente odiado pelos judeus, que viam nos publicanos não apenas pecadores públicos, mas traidores da nação. Foi no exato local de sua miséria, a alfândega, que a Misericórdia encarnada o encontrou. Com um simples e soberano "Segue-me", Cristo arrancou-o da avareza para a pobreza evangélica, transformando o cobrador de moedas perecíveis em tesoureiro das riquezas eternas. Após pregar na Judeia, a tradição atesta que São Mateus levou a luz da fé até a Etiópia, onde selou seu testemunho com o próprio sangue, sendo martirizado enquanto celebrava o Santo Sacrifício. Suas relíquias sagradas repousam hoje na venerável Catedral de Salerno, na Itália, de onde continuam a exalar o bom odor de Cristo para toda a Cristandade.
Contemplai, ó almas atentas, a cena formidável que o Evangelho desta Vigília nos coloca diante dos olhos: de um lado, o mundo e suas seduções representados pela mesa da coletoria; do outro, a eternidade que se aproxima na Pessoa do Verbo Encarnado. Mateus estava sentado, submerso no brilho estéril do ouro, preso às pesadas correntes do lucro temporal. Mas eis que passa o Senhor da Glória! Como bem ensina o Venerável Beda, Jesus não olhou para Levi apenas com os olhos do corpo, mas o fitou com o olhar íntimo da misericórdia, e esse olhar foi uma lança de amor que despedaçou o coração de pedra do publicano. Imediatamente, ele deixa tudo para trás. Abandonar riquezas para seguir um Mestre pobre! Que contraste estarrecedor com a triste ilusão que hoje se espalha como veneno em nossos dias. Vemos erguer-se, sob o manto da religião, uma grande farsa cenográfica, um arremedo de piedade que preserva altares, ritos externos e palavras suaves de afeto, mas cuja essência foi totalmente corrompida. Nessa estrutura de papelão (onde a verdadeira elevação a Deus é substituída por uma celebração do próprio homem) a liturgia deixa de ser o sacrifício incruento do Calvário para tornar-se uma mera confraternização humana. Tudo ali é desenhado para afagar os instintos, para não exigir renúncia alguma, convertendo a fé robusta dos mártires em um inofensivo sentimento de pertencimento social. Expulsa-se a Cruz, silencia-se o julgamento divino, e o Céu é trocado por um falso paraíso terreno onde o homem aplaude a si mesmo. Contra esse perigoso naturalismo, contra essa idolatria do conforto que esvazia a sã doutrina, ergue-se o formidável exemplo de São Mateus. A missão deste grande Apóstolo, gravada a fogo em seu Evangelho e em sua vida, é justamente a de golpear mortalmente a ilusão materialista. Ele nos ensina que não há aliança possível entre o altar e a alfândega do mundo. Para ser uma "oliveira frutífera na casa do Senhor" (como canta o Introito) é preciso abandonar as feiras de vaidades desta terra. Pergunto-vos: continuaremos nós sentados em nossas pequenas coletorias de vaidade, apegados aos nossos confortos, enquanto o Salvador nos chama à penitência? Despertemos! Fomos chamados não para o palco ilusório de uma religião acomodada, mas para a via estreita do Calvário, o único caminho onde a verdadeira vida, aquela que não passa, pode ser encontrada.
Epístola (Eclo 44, 25-27; 45, 2-4. 6-9) - Benedíctio Dómini super caput justi. Ideo dedit illi Dóminus hereditátem, et divísit illi partem in tríbubus duódecim: et invénit grátiam in conspéctu omnis carnis. Et magnificávit eum in timóre inimicórum, et in verbis suis monstra placávit. Glorificávit illum in conspéctu regum, et jussit illi coram pópulo suo, et osténdit illi glóriam suam. In fide et lenitáte ipsíus sanctum fecit illum, et elégit eum ex omni carne. Et dedit illi coram præcépta, et legem vitæ et disciplínæ, et excélsum fecit illum. Statuit ei testaméntum ætérnum, et circumcínxit eum zona justítiæ: et índuit eum Dóminus corónam glóriæ.
A bênção do Senhor está sobre a cabeça do justo. Por isso, o Senhor deu-lhe a herança e dividiu a sua parte entre as doze tribos; e ele achou graça diante de toda carne. E o engrandeceu para terror de seus inimigos e por suas palavras aplacou os monstros. Glorificou-o na presença dos reis, e deu-lhe ordens diante do seu povo, e mostrou-lhe a sua glória. Em sua fé e mansidão o santificou, e o escolheu dentre toda a carne. E deu-lhe os preceitos face a face, e uma lei de vida e de disciplina, e o exaltou. Estabeleceu com ele uma aliança eterna, e cingiu-o com o cinto da justiça: e o Senhor o revestiu com uma coroa de glória.
Evangelho (Lc 5, 27-32) - In illo témpore: Vidit Jesus publicánum nómine Levi, sedéntem ad telónium, et ait illi: Séquere me. Et relíctis ómnibus, surgens secútus est eum. Et fecit ei convívium magnum Levi in domo sua: et erat turba multa publicanórum et aliórum, qui cum illis erant discumbéntes. Et murmurábant pharisǽi et scribæ eórum, dicéntes ad discípulos ejus: Quare cum publicánis et peccatóribus manducátis et bíbitis? Et respóndens Jesus, dixit ad illos: Non egent, qui sani sunt, médico, sed qui male habent. Non veni vocáre justos, sed peccatóres ad pœniténtiam.
Naquele tempo, viu Jesus um publicano chamado Levi, sentado na coletoria de impostos, e disse-lhe: Segue-me. E ele, deixando tudo, levantou-se e o seguiu. E Levi ofereceu-lhe um grande banquete em sua casa: e havia uma grande multidão de publicanos e de outras pessoas, que estavam com eles à mesa. E os fariseus e os escribas deles murmuravam, dizendo aos seus discípulos: Por que comeis e bebeis com os publicanos e pecadores? E, respondendo Jesus, disse-lhes: Não são os que têm saúde que precisam de médico, mas sim os doentes. Não vim chamar os justos, mas os pecadores à penitência.