sábado, 1 de novembro de 2025

Vigésimo Terceiro Domingo depois de Pentecostes

O Vigésimo Terceiro Domingo depois de Pentecostes nos conduz, com passos firmes e solenes, para o crepúsculo do ano litúrgico, momento em que a Santa Igreja, como mãe zelosa, recolhe os olhares de seus filhos das vaidades passageiras e os fixa nas realidades eternas. Instituída na venerável antiguidade do rito romano, esta liturgia não celebra um evento distante, mas a urgência da nossa própria salvação e a iminência do juízo. É um tempo em que os paramentos verdes da esperança nos recordam que, apesar das tribulações do exílio terreno, a promessa de restauração permanece inabalável. Nas antigas basílicas de Roma, como a majestosa Basílica de São Pedro, os cristãos se reuniam não para um mero encontro social, mas para implorar o toque curativo do Divino Médico, preparando suas almas para o glorioso advento do Rei dos reis, cuja paz suplanta toda a compreensão humana.


Vede, meus irmãos, o contraste tremendo que o Evangelho de hoje nos lança diante dos olhos, dividindo o mundo entre os que ruidosamente encenam a religião e aqueles que, no silêncio da dor, tocam o manto de Deus! Em nossos dias, quão frequentemente nos deparamos com uma falsificação grosseira da fé, uma verdadeira paródia do sagrado? Edificam-se ajuntamentos que ostentam o nome de católicos, preservam os velhos símbolos e os discursos doces de solidariedade, mas cujas engrenagens internas giram velozmente em direção ao abismo. Nessas assembleias, o altar foi rebaixado ao nível da praça; a adoração foi substituída pela celebração do próprio homem, que audaciosamente sobe aos degraus do santuário e expulsa o Criador para os bastidores. A liturgia, que deveria ser o sacrifício incruento e o eco da eternidade no tempo, degenera-se numa mera festa mundana, num aglomerado de sentimentos confortáveis onde a retidão do ensino incomoda e a cruz é banida como relíquia de um passado sombrio. São estes os inimigos da Cruz de Cristo, sobre os quais o Apóstolo chora na Epístola! Eles têm por deus o próprio ventre e saboreiam apenas o pó desta terra corrompida. Mas a verdadeira Esposa de Cristo, a Igreja viva, recusa-se a participar desse alarido teatral. Como a mulher hemorroíssa, ela sabe que a multidão curiosa aperta o Senhor, mas não O toca; ela sabe que não basta estar no meio do povo, mas é preciso rasgar o véu da mediocridade com uma fé que sangra, que chora e que crê. Enquanto o mundo ri da promessa da vida eterna (exatamente como os tocadores de flauta riram de Jesus na casa do chefe da sinagoga), a alma católica prostra-se por terra, ciente de que a nossa cidadania está nos céus! Pergunto-vos: de que lado estais? Sois da multidão que transforma a religião num espetáculo de conveniências terrenas, ou sois como aquele pai desolado e aquela mulher doente que, rejeitando as facilidades de um mundo em trevas, depositam toda a sua esperança no toque do Salvador? Santo Agostinho bem nos adverte que a carne pressiona, mas somente a fé verdadeira toca o Cristo. Abandonemos, pois, as ilusões de um cristianismo sem sacrifício; deixemos que Nosso Senhor expulse de nossas almas os ruídos do século, para que, no silêncio majestoso da graça, Ele tome a nossa miséria pela mão e nos levante do sono do pecado para a luz inextinguível da glória eterna.

← Voltar

Introito - (Jr 29, 11-12. 14; Sl 84, 2) Dicit Dóminus: Ego cógito cogitatiónes pacis, et non afflictiónis: invocábitis me, et ego exáudiam vos: et redúcam captivitátem vestram de cunctis locis. Ps. Benedixísti, Dómine, terram tuam: avertísti captivitátem Jacob.Diz o Senhor: Eu tenho pensamentos de paz, e não de aflição; vós Me invocareis e Eu vos ouvirei; e farei voltar os vossos cativos de todos os lugares. Sl. Abençoastes, Senhor, a vossa terra: livrastes Jacob do cativeiro.


Epístola (Fl 3, 17-21; 4, 1-3) - Irmãos: Sede meus imitadores e observai os que andam conforme o exemplo que tendes visto em mim. Pois muitos há, de quem muitas vezes vos tenho falado (e ainda agora falo com lágrimas), que procedem como inimigos da Cruz de Cristo. O fim deles é a perdição; têm por Deus o ventre; gloriam-se daquilo de que se deviam envergonhar, gostando somente das coisas terrenas. Quanto a nós, o nosso viver é nos céus, de onde também esperamos o Salvador, Nosso Senhor Jesus Cristo. Ele transformará nosso mísero corpo, tornando-o semelhante a seu corpo glorificado, pelo poder que tem de sujeitar a Si todas as coisas. Portanto, irmãos meus, muito amados e queridos, alegria e coroa minha, permanecei assim firmes no Senhor, caríssimos. Rogo a Evódia e suplico a Síntique que sejam unidas no Senhor. E peço também a ti, meu fiel companheiro, que as ajudes, porque comigo trabalharam em prol do Evangelho com Clemente e meus outros colaboradores, cujos nomes estão no livro da vida.


Evangelho (Mt 9, 18-26) - Naquele tempo, falava Jesus ao povo quando se aproximou d'Ele um príncipe da sinagoga e O adorou, dizendo: Senhor, agora mesmo faleceu a minha filha, mas vinde, imponde a vossa mão sobre ela e viverá. Jesus levantou-se e seguiu-o com os seus discípulos. E eis que uma mulher, que havia doze anos padecia de um fluxo de sangue, chegou-se por detrás d'Ele e tocou-Lhe na orla do vestido. Porque dizia consigo: Se eu tão somente tocar no seu vestido, ficarei curada. Voltou-se Jesus, e vendo-a, disse: Tem confiança, filha, tua fé te salvou. E naquela hora a mulher foi curada. Quando Jesus chegou à casa do príncipe, e viu os tocadores de flauta e muita gente em alarido, disse-lhes: Retirai-vos, porque a menina não está morta, mas dorme. E riram-se d'Ele. Mas depois que fez sair a gente, Jesus entrou, tomou a menina pela mão, e ela se levantou. E divulgou-se a notícia deste milagre por toda aquela região.

|
--